10/07/2003 15h17 – Atualizado em 10/07/2003 15h17
O Senador Delcídio do Amaral vai pedir ao Ministério dos Transportes a realização, o mais rápido possível, de uma audiência pública em Campo Grande, para apontar soluções que ajudem a reverter o sucateamento da ferrovia em Mato Grosso do Sul. Convidados pela equipe técnica que assessora o senador, representantes do governo do estado, do Sindicato dos Ferroviários , do SEBRAE e de organizações não-governamentais participaram na noite desta quarta-feira da primeira de uma série de reuniões que vão preparar a audiência e desencadear uma mobilização geral, envolvendo autoridades, estudantes, meios de comunicação , ONGs, universidades públicas e privadas, produtores rurais e empresários de turismo, com o objetivo de unir a sociedade na luta pela revitalização da ferrovia, considerada fundamental para o desenvolvimento do estado.
Na semana passada, Delcídio fez um discurso no Senado onde denunciou o abandono dos trilhos, estações , locomotivas e vagões daquela que já foi uma das mais importantes estradas de ferro do Brasil. O ramal , que vai de Bauru (SP) a Corumbá e também para Ponta Porá, foi entregue à iniciativa privada em 1996 e está hoje em péssimo estado de conservação, o que representa desperdício de dinheiro público e um desrespeito a própria história do estado.De acordo com informações do presidente da Agência Estadual de Transportes , Fermiano Iarzon, a empresa Novoeste, que administra os 1611 km de ferrovia , 74 % dela em Mato Grosso do Sul, acumula hoje um déficit operacional e comercial que chega a R$ 152 milhões.
De acordo com o consultor Saulo Monteiro, que integra a equipe de assessoria a Delcídio, é interesse do governo federal promover mudanças no modal de transportes no Brasil, hoje baiscamente concentrado no setor rodoviário.
- Circulam pelas estradas brasileiras 70 % das cargas e dos passageiros. Enquanto isso temos uma malha ferroviária importante, relegada a segundo plano. O Ministério dos Transportes já sinalizou que isso vai mudar e a revitalização da ferrovia em nosso estado vem atender a essa vontade política do governo – explicou Monteiro.
De acordo com o que ficou acertado na reunião desta quarta-feira, a audiência pública a ser realizada em Campo Grande, possivelmente na primeira quinzena de agosto, vai abordar vários temas, entre eles a reestatização do trecho da ferrovia que liga Campo Grande a Corumbá, a volta do Trem do Pantanal, a situação trabalhista dos ferroviários que ingressaram com dezenas de ações na Justiça contra a Novoeste, os impactos ambientais , os ganhos para o setor de turismo, a construção de um novo ramal, que ligaria Maracaju até Porto Murtinho e serviria para escoar, via Rio Paraguai, a produção agropecuária do estado e a punição para os responsáveis pelo sucateamento da ferrovia , pedida por Delcídio no discurso feito no Senado.
- Vamos engajar todo mundo nessa luta. Os governos federal e estadual, os prefeitos dos 13 municípios por onde passa a ferrovia, lideranças do setor rural, os trabalhadores que não agüentam mais sofrer com tanto descaso por parte da Novoeste e, principalmente, o cidadão sul-mato-grossense, que vive com saudade do tempo em que o trem era sinônimo de progresso , lazer e desenvolvimento – afirmou Saulo Monteiro.
CEMITÉRIO DE VAGÕES:
Durante a reunião no escritório do Senador Delcídio do Amaral, o presidente do Sindicato dos Ferroviários de Mato Grosso do Sul, Waldemir Vieira, denunciou a existência de um “cemitério de vagões” na Estação Luiz Gama, no município de Ribas do Rio Pardo.
- Todas os trens que se envolveram em acidentes nos últimos anos foram levados para lá , onde estão sendo corroídos pelo tempo. São pelo menos 150 vagões totalmente abandonados , em um flagrante desrespeito ao patrimônio público. Precisamos ir lá para documentar aquela vergonha – disse Vieira.
Já o arquiteto Ângelo Arruda, dirigente da ONG Ferroviva, divulgou dados de uma pesquisa feita entre os usuários do transporte rodoviário entre Campo Grande e os municípios cortados pela ferrovia até a cidade de Corumbá. Segundo ele, 98 % dos entrevistados apóiam a volta do Trem do Pantanal e dizem que vão usá-lo regulamente, mesmo que a tarifa custe até 10 % mais caro que a do ônibus.
- Isso é surpreendente e revela o grande amor que o sul-mato-grossense sente pela ferrovia. Além disso, o usuário tem consciência da importância desse meio de transporte para o desenvolvimento do estado. A pesquisa apontou que o trem vai servir como alimentador do fluxo de turistas nacionais e estrangeiros para Bonito e o Pantanal e substituir o desconforto das vans pela possibilidade de contemplar a natureza em um produto único no mundo , que é o Pantanal Sul-mato-grossense – afirmou Arruda.
Por sua vez, o diretor da Agência Estadual de Transportes, Fermiano Iarzon, disse que o Governo do Estado trabalha com uma proposta que prevê investimentos de R$ 225 milhões, em recursos públicos e privados, para revitalização do trecho entre Campo Grande e Corumbá, com a reforma completa dos trilhos, estações, locomotivas e vagões do Trem do Pantanal, que voltaria com novidades , entre elas um vagão musical, onde o passageiro poderia apreciar a música regional e um vagão cegonheiro, como existe nos Estados Unidos – o turista embarca com o veículo no trem , faz o passeio em um dos sentidos , Corumbá ou Campo Grande, e depois volta dirigindo o próprio carro.
Os estudos indicam que o público estimado para o início das operações , previsto para 2006, é de 300 mil pessoas / ano, o que garantiria a sustentabilidade da ferrovia.




