28/01/2003 09h07 – Atualizado em 28/01/2003 09h07
O Banco Central da gestão Henrique Meirelles – aliás, sob comando interino de Edison Bernardes (diretor de Administrãção do BC), já que o titular se recupera de acidente na Suíça – passa hoje pelo sua primeira prova de fogo: o teste da dívida.
É verdade que a autoridade monetária já promoveu com sucesso a rolagem de dois vencimentos neste mês, que primaram pela moderação das taxas pagas pelos investidores. Hoje, entretanto, o BC vai, pela primeira vez no ano, tentar rolar uma dívida sob condições adversas – a instabilidade gerada pela iminência de guerra entre EUA e Iraque.
O vencimento, de US$ 1,839 bilhão, ocorre segunda-feira (dia 3) e é inteiramente composto por “swaps cambiais” – contratos que, além de uma taxa de remuneração, pagam ao investidor um ajuste equivalente à diferença entre a variação dos juros e do dólar no período de vigência.
A padronização determinada pelo BC entre rolagens de contratos e de títulos cambiais impõe um teto de US$ 1,735 bilhão para a parcela alongada da dívida.
O sinal de advertência, entretanto, vem da taxa de remuneração. O parâmetro para as taxas exigidas pelo mercado costuma ser o FRA (Forward Rate Agreement) de cupom cambial – o contrato “limpo” de juros em dólar. Ontem, o FRA para abril, o mais negociado, apontava taxa de 19,1%.
O detalhe é que, na última rolagem, encerrada no dia 17, as taxas chegaram a 8%. Ou seja, elas praticamente dobraram num período de 10 dias, fazendo o movimento inverso das primeiras semanas do ano, quando desceram de 19% para 8% com o otimismo do mercado perante as primeiras declarações do novo governo.
Isso pode indicar alguma dificuldade em o mercado aceitar o lote integral ofertado pelo BC. Tanto que, após abrir mão das rolagens de curtíssimo prazo nas duas primeiras operações do ano, o BC volta a ofertar papéis com vigência de um mês – vencimento em março – talvez com maior aceitação mediante o cenário de instabilidade.
Como nos demais mercados a instabilidade vem da ameaça de guerra. A tensão entre EUA e Iraque, que andava amornada nos últimos meses, ganhou força no último dia 16, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) encontrou ogivas químicas vazias em território iraquiano.
Ontem, o que seria o “dia-chave” do conflito segundo EUA e Reino Unido – que defendem a intervenção militar no Iraque para forçar o desarmamento, supondo que existam armas – acabou sem avanços nem retrocessos.
A ONU apresentou seu relatório de armas para o país, afirmou que o Iraque está colaborando, mas não tanto quanto deveria – o que pode retardar a guerra, mas não parece ainda suficiente para evitá-la, apesar da oposição franco-alemã.
Hoje, é dia do discurso anual do presidente norte-americano sobre o Estado da União. A expectativa é que George W. Bush não declare guerra, mas dê pistas de quando poderia ocorrer uma ação norte-americana.
Analistas acreditam que, uma vez instalada a percepção de que a guerra é irreversível, o melhor seria que a situação se definisse logo, para amenizar o prejuízo para o mercado antecipando também uma recuperação.
Fonte: Folha Online





