01/10/2009 13h35 – Atualizado em 01/10/2009 13h35
Minha vida não é uma carta de navegação,
cujos pontos, ilhas, faróis e rotas
estejam previamente traçados,um dia
quem sabe, terei domínio do meu futuro.
(T.L.B.) primavera de 2009.
Acometida de uma enfermidade, há tempos tive que sair da sala de aula, impossibilitada de escrever no quadro negro; educadora imbuída de uma enorme vontade de transformar a vida de meus alunos, para excelente qualidade de vida, estou com minha alma um tanto quanto combalida, pelo que tenho visto e ouvido nestes últimos dias.
Entendo e aprendi nos bancos da academia, que o momento nobre da escola é quando ela sai das quatro paredes para ser uma escola no mundo; se assim não fora, ela perde sua característica explicita na famosa frase de Paulo Freire, inimitável Paulo.
“(…) Se for capaz de escrever minha palavra estarei, de certa forma transformando o mundo. O ato de ler o mundo implica uma leitura dentro e fora de mim. Implica na relação que eu tenho com esse mundo”.
A mídia Nacional mostrou a quem quisesse ver um lastimável fato ocorrido entre André Puccinelli Governador do MS e o Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc. Foram trocas de ofensas das partes envolvidas, tão sérias que causou-me espécie; não só pra mim, mas para todos que tenham o mínimo de bom senso.
Ao logo da minha trajetória em sala de aula jamais perdi a oportunidade de inculcar aos alunos, nuances de uma boa educação já que de longa data, dadas as circunstancias da desestruturação familiar, embora seja triste, isso é factual, cabe agora aos educadores esta tarefa, (que outrora era dos pais) assim como ensinar o respeito às autoridades constituídas, até porque sabe-se que:
“Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores, pois não há autoridade que não venha de Deus” .Romanos 13.1
Corre a boca pequena no MS que André Puccinelli tem o pavio curto, se isso é constatação não sei, não obstante, sei com exatidão que há bem pouco tempo atrás ele chamou os professores da Rede Estadual de vagabundo, alegando que os mesmo têm tempo suficiente para elaboração de aulas, inclusive sugeriu que procurassem no Google, pois lá tem tudo para se ministrar uma boa aula. Pode, Freud?
Ah! Como eu gostaria de saber, como era esse Governador quando sentava nos bancos escolares, busco na Psicologia básica que é muito provável que ele tenha tido problema muito traumático na infância ou adolescência, que faz com que hoje perca sensatez e aja assim, com tanta rispidez, com pessoas, cujas mãos embranquecidas de giz repousam as rédeas de uma nação. O professor!
Todos devem ter assistido na TV, propagandas conclamando pessoas a entrarem no site do MEC para fazerem parte do quadro de professores brasileiros, por que será?
Respondo sem medo de ser feliz, a considerar a quantas anda, a escola de hoje, tempos virão que não haverá mais professores, está a deriva esse barco sem rumo.
São inúmeras as teses de Mestrado e Doutorado que norteiam a qualificação de educadores, mas pouco se vê teses, que se atem como objeto de pesquisa, aquele que se senta nas carteiras escolares, o educando; como já citei acima as famílias estão fenecendo, por mais que lute as igrejas, as pastorais, essa é realidade, agora pergunto, qual será a resposta de um Coordenador Pedagógico quando, se deparar com um aluno que hostilizou o professor em sala de aula, argumentar que se o Governador e o Ministro podem se ofenderem mutuamente em Rede Nacional por que ele não poderia desacatar seu professor, que pediu silêncio para ensinar literatura ou trigonometria etc…?
Que ironia!
O titulo dessa crônica nada tem a ver com ode, pois entende-se por ode uma composição poética de caráter lírico, composta de estrofes simétricas.
Oxalá, eu tivesse capacidade para escrever uma ode perfeita, viajaria no mais profundo do meu ser poético, para expressar meu respeito e admiração para aqueles professores, nesse mundo a fora, que na calada da noite, quiçá à luz de velas, sem computador e muito menos Google, preparam com amor, a aula a ser ministrada no dia seguinte e terão que andar muito para chegar à escola, certamente passaram por inúmeros perigos, talvez até vão duelar com tubarões, para chegar ao seu porto seguro; a escola que lecionam.
Não sou dramática, dramática são, as descabidas realidades, da qual se depara o educador de hoje. Oportuna é essa ocasião para exaurir esse tema, saibam que no meio educacional, os Educadores de Gabinete vivem dizendo para os professores inovarem e enriquecerem suas aulas com vídeos , Data Show, oficinas lúdicas ,sala de Multimídia, enfim recursos que incentivem a aprendizagem do educando, contudo desejo nesta prédica, deixar claro que por mais que se esforce o professor, ainda assim não chegará a bom termo; com conhecimento de causa defenderei meus companheiros atuantes em sala.
A titulo de esclarecimento, uma professora companheira de longa jornada, de Geografia, preocupada com aprendizagem de seus alunos , convidou um Professor Doutor da UFMS ótimo educador, para ministrar uma aula sobre localização, GPS e etc , o Doutor trouxe para os alunos além de Data Show e todo aparato necessário,, incluindo o GPS e Bússola, e ministrou uma aula fantástica, agora perguntem se alunos prestaram atenção, jamais,!!
Muito pelo contrário, ficaram com fone no ouvido, ou mandando mensagem por celular ao colega do lado, eu estava na sala e fiquei perplexa; enquanto tomava consciência amarguradamente de uma certeza, os alunos perderam a emoção de aprender, evadiu-se a alegria do amor as primeiras letras.Nem que a professora de Inglês traga tradução de músicas da Malhação, ou que outra exiba vídeo com maravilhosas dicas de ortografia para vestibulandos, nada disso fará efeito, em síntese o mestre pode até plantar bananeira na sala de aula, para eles apreenderem o conteúdo, o máximo que poderá acontecer, será visto como pândego, apenas e tão somente vai arrancar gargalhadas e levar nome de maluco, acreditem, é vero isso; estamos diante de uma geração Miojo, sim porque três minutos é o máximo que os alunos param para ouvir, claro com raríssimas exceções.
Dramático, muito dramático, isso sem considerar a questão da violência nas escolas, da qual não discorrerei agora., pois nesse momento minha intenção é deixar bem nítido, que o educador de hoje, encontra-se totalmente sem rumo .O referido é verdade e dou fé.
Ouso dizer a todos e a quem possa interessar, para colocarem uma câmera escondida numa sala de aula, e assistiram então verão ,o que é realmente dramático, onde encontro apoio?
Nas pesquisas que mostram um número assustador de professores com depressão advindas da profissão, que não deveria ser vista como profissão, mas sim como legado eterno, e depois de tudo isso, ainda é chamado de vagabundo, ao invés de ter nos governantes autênticos aliados na arte de ensinar, muito pelo contrario, encontram neles um adversário político, quando ousam pedir clemência e respeito no que tange a esse piso salarial vergonhoso, ainda bem que conheci Ruben Alves , ele afirma em seu livro ,A arte de ensinar ,que:
“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles, cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…”
Eu não morrerei jamais, não antes de escrever uma ode, nesse dia terei encontrado meu caminho, enfim; como se ele fora, uma carta de navegação precisa e de rota segura, assim chegarei ao porto da qual sempre desejei e ancorarei meu barco salvo e feliz, onde está meu porto?
Na escola que sonhei, honrando o titulo que nos longínquos anos de 90, a academia me outorgou nome sobremodo honroso. Educador, professor,,,,
Eu não morrerei Sr. Dr.André, mesmo sem seu reconhecimento e ajuda, hastearei minha bandeira, ainda que em farrapos, com palavras escritas; que nesse momento soam como se fossem sagradas… Em meio a lagrimas de ingratidão de alguns poucos incautos navegantes, e em nome dos meus companheiros professores, juntos hastearemos a bandeira, escrita com pena de ouro…
“Sou professor, não morro jamais.”
*Sueli Batista Damasceno é professora da Rede Estadual do MS e poetiza
Sueli Batista DamascenoSueli Batista Damasceno


