Promotoria afirma que juiz e promotor fizeram intervenções para proteger a vítima e que essa parte não teria sido mostrada no material divulgado pelo The Intercept

O Ministério Público de Santa Catarina vai pedir a retirada o sigilo do depoimento de Mari Ferrer com o intuito de mostrar que o material “foi editado de modo a sonegar as intervenções realizadas pelo Promotor de Justiça, pelo Magistrado e pelo assistente de acusação em favor de Mariana“, de acordo com nota divulgada no site do MP.

O vídeo, divulgado pelo site The Intercept Brasil, mostra o advogado de defesa do réu, André de Camargo Aranha – acusado de tê-la dopado e estuprado em uma boate em Florianópolis em dezembro de 2018 e absolvido pela Justiça catarinense em setembro deste ano – usando fotos tiradas por Mariana para desacreditar e humilhar a vítima.

Ele chama as poses de “ginecológicas” e diz, agressivamente, que jamais teria uma filha “no nível de Mariana”. “Não adianta vir com esse teu choro dissimulado. Falso. Essa lágrima de crocodilo”, afirma. E a acusa de “ganhar a vida com a desgraça dos outros”.

O vídeo não mostra intervenções da Promotoria nem do juiz Rudson Marcos, que só interfere para perguntar se Mariana precisa tomar água para se recompor e diz que poderia suspender a audiência.

Entre lágrimas, Mariana pede ao juiz respeito: “Eu só estou pedindo respeito, doutor. Excelentíssimo, eu estou implorando por respeito, no mínimo. Nem os acusados de assassinato são tratados da forma como estou sendo tratada, pelo amor de Deus. O que é isso?”.

As imagens causaram revolta nas redes sociais. O Ministro do STF, Gilmar Mendes, afirmou que “As cenas da audiência de Mariana Ferrer são estarrecedoras. O sistema de Justiça deve ser instrumento de acolhimento, jamais de tortura e humilhação. Os órgãos de correição devem apurar a responsabilidade dos agentes envolvidos, inclusive daqueles que se omitiram.”

O Ministério Público considera que os trechos, da forma que foram editados, prestam um desserviço ao mostrar Mari Ferrer sem nenhuma proteção às acusações do advogado, inibindo que outras vítimas procurem a Justiça em casos de estupro.

Diz a nota do MP: “No primeiro momento em que o advogado de defesa adotou atitude desrespeitosa em relação a Mariana, o Promotor de Justiça interveio para que ela não fosse exposta a situação de constrangimento. Além dessa manifestação, a íntegra do vídeo apresenta inúmeras outras interrupções promovidas pelo Promotor de Justiça, pelo defensor público que atuava como assistente de acusação e pelo Juiz, presidente do ato, inclusive nos momentos que foram editados para, propositalmente, excluir as intervenções realizadas em favor de Mariana”.

E continua: “O Ministério Público reitera seu repúdio à atitude do advogado e ressalta que a exploração de aspectos pessoais da vida de vítimas de crimes sexuais não pode, em hipótese alguma, ser utilizada para descredenciar a versão fornecida por ela aos fatos. É absolutamente lamentável que esse tipo de argumento ainda seja apresentado por defensores e essa postura é amplamente combatida pelo Ministério Público de Santa Catarina”.

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