18/08/2003 08h54 – Atualizado em 18/08/2003 08h54
RIO – Em entrevista exclusiva aos jornalistas Pedro Bial e Glória Maria, do programa “Fantástico”, da Rede Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, falou da intimidade do poder. Lula contou de suas alegrias nestes quase oito meses como presidente da República e de seus projetos de governo. Leia os principais trechos:
MORAR NO PALÁCIO DA ALVORADA
“Eu acho ele muito grande para quem está acostumado com uma casa menor, mais aconchegante, isso aqui é um pouco exagerado. Mas também você tem que levar em conta que é um palácio, você está sempre de passagem por aqui. Mas eu acho que ele tem algumas coisas que justificam o presidente morar aqui. Primeiro, o ritual do cargo de presidente da República. É a casa oficial do presidente da República e todos nós temos que entender isso. Segundo é que ele parece gélido por fora porque é muito concreto, muita coisa, mas por dentro é uma coisa maravilhosa
FRUSTRAÇÃO
“Eu ainda não tive frustração. Eu tenho apreensões, tenho preocupação porque a minha chegada à presidência da República foi uma conquista muito dura, árdua, um caminho percorrido com muito sacrifício. Mas ao mesmo tempo eu sou um presidente que não posso me queixar: “Ah, alguém quis que eu fosse, um partido quis que eu fosse”. Eu quis ser presidente da República porque eu queria provar para mim e para os outros que nós seríamos capazes de fazer aquilo que achávamos que os outros deveriam fazer. Eu digo sempre o seguinte: eu não preciso de pauta de reivindicações porque eu tenho todas as pautas de reivindicações que eu construí ao longo de trinta anos de oposição. Portanto, agora eu só tenho que cumprir aquilo que reivindiquei para os outros. É difícil, tem que ter muita paciência, não ficar nervoso nunca, não perder a esperança nunca. As coisas não são fáceis porque você nunca tem o dinheiro que você pensa que tem. Mas estou convencido, cada dia mais otimista que nós vamos fazer.”
ALEGRIA
“Bem, vocês não têm dimensão do que foi minha alegria no dia da posse. Eu tive várias alegrias. Primeiro, a escolha do meu Ministério foi uma coisa tranqüila. Eu acho que poucas vezes na História da República um presidente teve a tranqüilidade de montar um Ministério como eu tive. Eu escolhi quem eu quis no meu Ministério. Obviamente, no meu estilo de fazer política, consultando quem eu entendia que deveria consultar. Um motivo de alegria é o comportamento de meus ministros. Um motivo de alegria é a compreensão que a sociedade tem com as dificuldades que nós enfrentamos e do papel que nós jogamos. Eu tenho a alegria de ter feito a reforma que muitos sonharam fazer e não tiveram coragem de fazer. Em apenas três meses e meio nós aprovamos uma proposta de mudança na Previdência Social que alguns países levaram anos para fazer. No Brasil, muitos tentaram e não conseguiram. E nós, em apenas três meses e meio de governo, conseguimos aprovar nesta semana a proposta de mudança na Previdência Social.”
REFORMA DA PREVIDÊNCIA
“Ela faz justiça. Primeiro porque o objetivo da reforma é garantir que daqui a 20, 30 anos as pessoas tenham o direito de receber sua aposentadoria. Do jeito que estava hoje, os estados do jeito que estão falidos, e portanto as pessoas não iriam receber mais. Então, o projeto garante aos nossos filhos, aos nossos pais o direito de amanhã receber a aposentadoria. É muito importante porque nós tivemos um presidente da República que foi eleito no Brasil dizendo que iria acabar com os marajás. Isso foi em 1989. Nunca se mentiu tanto no combate aos marajás como naquela época. E eu que nunca falei de marajás, aprovada esta semana a Previdência, nós acabamos com os marajás porque o maior salário vai ser o salário do ministro do Supremo Tribunal Federal, que hoje é R$ 17 mil.”
REFORMA TRIBUTÁRIA
“Eu não estou pensando numa reforma para mim e muito menos uma reforma para meu partido, muito menos uma reforma para a base aliada. Então, a reforma é uma reforma para o Brasil. Uma reforma tributária que desobstrua o setor produtivo brasileiro, que desobstrua a nossa capacidade de exportação e que aumente a base de contribuintes para que o estado possa arrecadar o justo para fazer política social. Eu vou contar uma coisa para vocês: nós vamos fazer a reforma tributária, de comum acordo. Se eu precisar ter uma negociaçãozinha aqui ou ali, desde que você não fira o núcleo da proposta que é diminuir a carga tributária para o setor produtivo, nós vamos fazer. O fato de alguém estar falando, isso não tem problema, sabe, nós vamos fazer. Eu tenho toda a paciência do mundo. Você não imagina como eu tenho paciência.”
MINISTÉRIO
Nós temos que ter uma relação de companheirismo entre os ministros porque a loucura aqui é de tal ordem que eu tento sempre ponderar para eles que tem que construir uma relação de amizade entre as pessoas. Inclusive tentar ligar com as esposas, fazer algumas coisa que junte gente para as pessoas se sentirem parceiras no mesmo barco. É por isso que eu tenho insistido em fazer jogo de futebol.
TOMAR DECISÕES
Você tem princípios, mas você não governa apenas com princípios. Ou seja, o princípio baliza o teu comportamento, as tuas atitudes. Agora governar, meu caro, é tomar decisões. Você tem que, no mínimo, ser muito bem explicado e compreender para você tomar decisão. Vamos pegar a questão dos transgênicos. Está um debate dentro do governo, estamos montando um debate muito sério sobre isso porque em algum momento nós vamos ter que dizer se somos contra ou a favor ou muito pelo contrário. Eu já fui politicamente muito contra, hoje cientificamente eu já tenho dúvidas. Então você tem que aprimorando as coisas para poder tomar a decisão.
REELEIÇÃO
“Eu acho que quatro anos é pouco. Agora eu acho que tudo não deve ser feito por um homem. Você tem que ter uma equipe, partido que se suceda com esses mesmos compromissos. Eu confesso que sou contra a reeleição, eu acho que não é uma boa política a reeleição. Do ponto de vista pessoal, do ponto de vista político, o meu antecessor, por exemplo, se não tivesse buscado a reeleição, teria saído do governo como um Deus.”
MOVIMENTOS SOCIAIS
“Eu acho que o presidente da República tem que ser a pessoa mais paciente. Eu tenho que ter paciência com os movimentos sociais. Vocês nunca vão me ver reclamando de um movimento social que fez protesto aqui e ali porque eu fiz isso a minha vida toda. Então não podia ser bom quando eu fazia e agora que estou na presidência é ruim. O problema social existe e nós não podemos entender que a polícia vai ser a solução. A solução é o governo tomar atitudes para que o sofrimento da sociedade seja minorado. Estou tentando discutir com o movimento a necessidade de fazer um acordo. Se nós temos que fazer casa hoje, temos que concentrar todo o nosso potencial de construção e habitação nos grandes centros urbanos onde a necessidade é maior e onde a qualidade de vida está deteriorada. Se antigamente se criava frentes de trabalho para acabar com a seca no Nordeste, hoje temos que começar a pensar seriamente em criar frentes de trabalho nos grandes centros urbanos para ver se a gente consegue diminuir o sofrimento desta gente.”
REFORMA AGRÁRIA
Nem os sem-terra vão fazer reforma agrária na marra porque este país tem regras. Valem para o presidente, valem para eles. Nem o presidente vai fazer o que quer. Na marra, ninguém faz nada!
FOME ZERO
“O programa Fome Zero, quando começamos, as pessoas começaram a cobrar no dia seguinte. Se fosse fácil assim, todos teriam acabado com a fome no Brasil. Nós, primeiro, começamos a trabalhar como cadastrar e selecionar as pessoas que precisavam e você (dirigindo-se a Pedro Bial) vai ter uma belíssima surpresa para anunciar logo, logo no document.write Chr(39)Fantásticodocument.write Chr(39). Com já cadastramos todos os municípios do semi-árido
nordestino mais os municípios mais pobres de Minas Gerais, do Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Acre, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nós até agora temos, recebendo o cartão, 297 mil famílias. Mas em outubro nós já vamos ter 1,294 milhão e ainda para este ano nós vamos começar a atender 3,6 milhões famílias. Sabe o que isso significa? Multiplica por quatro que você vai perceber quantas pessoas. Nós vamos dar R$ 50 básicos para todo mundo que esteja cadastrado, depois vamos dar os R$ 15 da Bolsa-Escola até no máximo de três (por família). Então, as pessoas vão receber, em média, R$ 75 R$ 80 por mês. Ainda vamos ter exigências: mulher grávida tem que fazer todos os exames que a ciência exige; a criança até seis anos tem que passar no médico todas as vezes que a ciência exige e fazer todas as vacinas; e criança de 7 a 14 anos tem que estar na escola e os adultos têm que estar sendo alfabetizados. O dado concreto é que tem coisas que voc~e vai começar a fazer agora que vai demorar 10 anos, 12 anos. Acontece que se você não começar a fazer agora não vai acontecer nunca. Então, você tem que lançar a base agora e dentro desta base está a geração de emprego e a questão do combate à fome. Porque não é um compromisso político, é um compromisso de vida.É uma coisa que está no meu sangue. Eu não falo destas coisas porque eu quero combater a fome porque eu ouvi dizer que a fome é ruim. Não, é porque eu passei fome. Eu não transformei o emprego em minha obsessão porque eu ouvi dizer que o desemprego publicado pelo IBGE é grave. É porque eu já fiquei desempregado nesse país. Eu sei o que é a gente ficar desempregado.”
Fonte: GloboNews