05/08/2003 11h50 – Atualizado em 05/08/2003 11h50
“Temos que fazer com que cada um exerça a sua função. A unificação das polícias é difícil, mas a integração é possível. Muitos problemas têm a ver com a integração. Falta isso em Três Lagoas”. Esta foi a conclusão do diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI), delegado Sílvio Iran da Costa Melo, na noite desta segunda-feira, no auditório da Associação Comercial de Três Lagoas (ACITL), no encerramento do debate sobre Segurança Pública, que durou quase três horas de questionamentos. Iran estava acompanhado do delegado Luiz Sérgio da Silva, do Serviço de Inteligência da Polícia Civil.
O debate foi promovido pela sucursal do jornal Diário MS, em parceria com a ACITL, presidida pela empresária e professora universitária, Maria Luzia Lomba de Souza. Ela precisou ausentar-se do local, por compromissos, anteriormente assumidos.
Após ouvir e responder aos questionamentos a ele dirigidos, Iran anunciou duas sugestões, a serem estudadas para serem colocadas em prática, “dentro de 60 dias.”
Para ativar o serviço de Plantão, que será feito na sede da Delegacia da Mulher, no bairro Interlagos, Iran se propôs a enviar mais um delegado de polícia para a cidade, um escrivão e dois agentes.
A segunda sugestão é criar mais uma Delegacia, a ser instalada no ERPE – Edifício de Repartições Públicas Estaduais, na avenida Capitão Olinto Mancini. Essa nova Delegacia seria destinada exclusivamente ao atendimento e registro dos TCO (Termo Circunstancial de Ocorrência). Para isso, poderá ser feito um convênio da Polícia Civil com as faculdades de Direito, para aproveitamento dos serviços de estagiários.
Segundo informou Iran, são registrados na cidade, anualmente, mais de 1,5 mil TCO. Este serviço de registro de pequenas ocorrências, de menor gravidade criminal, tem congestionado os dois Distritos Policiais e a Delegacia da Mulher. Com a criação de mais uma Delegacia somente para TCO, os Agentes de Polícia teriam maior disponibilidade para atendimento e investigação de crimes mais graves.
Apesar do problema da falta de viaturas policiais, haver sido o mais questionado no debate, especificamente na PM, o diretor do DPI, nada pode anunciar, mas se comprometeu a levar a reivindicação até o secretário de Segurança Pública, Dagoberto Nogueira Filho.
O 2ºBPM, segundo foi relatado no debate, conta apenas com duas viaturas, em condições de uso, para uma cidade que possui quase 100 mil habitantes.
Representação foi significativa
Além de representantes do comércio, dos diversos segmentos da sociedade e até de vítimas recentes de assaltos a mão armada, o debate contou com a presença das seguintes autoridades: Juiz titular da 1ª Vara Criminal e Juiz Corregedor da comarca de Três Lagoas, Márcio Rogério Alves; Celso Antônio Botelho de Carvalho, Promotor de Justiça, representando o Ministério Público; Luiz Ricardo de Lara Dias, delegado regional; major do Exército Brasileiro, Otávio Dornelles Claret da Silva, comandante da 3ª/47ºBI; capitão PM Nelson Batista da Silva, subcomandante do 2º BPM; Pedro Carrilho de Arantes, da diretoria de Operações do Sistema Penitenciário; empresário Rubens Miranda Mello, representando a presidente da ACITL, membro do Conselho de Notáveis, diretor do RNPC de Três Lagoas e diretor secretário da FACIMS – Federação das Associações Comerciais e Industriais de MS; empresário José Paulo Rímoli, tesoureiro da ACITL e diretor da Fiems – Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul; Antônio Costa Corcioli, presidente da OAB de Três Lagoas; e Gilmar Gomes Mariano, diretor do Estabelecimento Penal de Três Lagoas (EPTL).
Além dessas autoridades, o debate contou também com a presença de quase todos os delegados de polícia da cidade, representantes do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar Ambiental, dos dois clubes do Rotary e Imprensa, representada pelo Jornal do Povo, Rádio Difusora, Rádio Caçula e Pantanal FM.
O senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e o deputado estadual Akira Otsubo (PTB) também não puderam comparecer, mas enviaram justificativas de compromissos inadiáveis. No entanto, eles formularam o empenho de viabilizarem o que for necessário para o cumprimento dos resultados do debate, junto ao Governo Estadual.
Por outro lado, apesar de convite enviado à Câmara Municipal, nenhum representante dos vereadores se fez presente. Esta ausência se fez notar publicamente e foi até “deplorada” pelo empresário Rubens Miranda Mello.
“Nossos políticos têm que reivindicar mais por Três Lagoas, porque vivemos numa situação de emergência”, disse Rubens.
Debate foi aberto com depoimentos de vítimas da violência
O debate sobre Segurança Pública, promovido pela sucursal do Diário MS, em parceria com a Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas (ACITL), foi aberto com depoimentos emocionantes de vítimas recentes da violência, marcada por assaltos a mão armada.
Relatos minuciosos de experiências de famílias que ficaram reféns de assaltantes; comerciantes que precisaram restringir horário de atendimento e até acabarem com o atendimento noturno, no caso de restaurantes, em prejuízo considerável das vendas, porque se sentem constantemente ameaçados; um comerciante, proprietário de um restaurante no centro, que se vê prejudicado por uma concorrência desleal e ilegal de venda de bebidas alcoólicas, até para menores de idade, nas proximidades do seu estabelecimento; e vendedores autônomos de jóias, que pensam até em desistir do seu comércio, porque já sofreram assaltos e ameaças consecutivas.
Toda essa realidade foi apresentada ao diretor do DPI e às autoridades presentes, numa linguagem espontânea, típica de quem pede urgente socorro.
“Minha casa foi arrombada num sábado à noite. Chamei a polícia e não compareceram ao local. A pessoa que me atendeu disse que estava sozinha no destacamento. Só compareceram na terça-feira”, disse um cidadão comum, por escrito.
Uma vendedora de jóias, emocionada não conseguia falar ao recordar o que havia passado, juntamente com sua família, refém dos assaltantes: “fui assaltada duas vezes, uma na rua e outra em casa, pela manhã… tive que emprestar o meu carro à Polícia para eles fazerem as investigações”.
Ao relatar sua experiência, um comerciante desabafou: “o nível de violência dos assaltantes está aumentando a cada dia, porque estão percebendo que nada acontece com eles. Por causa da falta de policiamento, ruas escuras e mal iluminadas, precisei contratar uma viatura da SVM para poder trabalhar” (empresa particular de segurança).
Por sua vez, o dono de um posto de combustíveis disse o seguinte: “Em 2002 e 2003, já fui assaltado por sete vezes”.
“Depois que fui assaltado por diversas vezes, quando qualquer pessoa estranha entra em meu comércio, logo fico com medo que seja mais um assaltante”, manifestou um outro comerciante aterrorizado.