18/03/2003 15h07 – Atualizado em 18/03/2003 15h07
Nem a convulsão entre o novo governo e as agências reguladoras, nem a iminência de uma guerra no Iraque parecem afetar o momento de euforia na telefonia celular no Brasil. Após duas aquisições em menos de dois meses, o setor continua movimentado: investidores avaliam oportunidades de negócios e as operadoras avançam na renovação tecnológica.
O mercado de celulares deve alcançar o número de telefones fixos no país ainda este ano, chegando aos 40 milhões.
Três características do mercado brasileiro alimentam a fase de fusões e aquisições, segundo o sócio da KPMG Corporate Finance, André Castello Branco: expectativa de crescimento, grupos sólidos e algumas empresas em dificuldades.
“O que a gente está sentindo é um volume muito grande de demanda na área de telecomunicações para analisar oportunidades”, afirmou Castello Branco à Reuters.
A BCP, operadora da região metropolitana de São Paulo, deve ser o próximo negócio a ser anunciado, embora dependa ainda de uma restruturação de dívida com os credores depois que deixou de pagar, há um ano, uma parcela de US$ 375 milhões. Alguns dos principais grupos do país estão interessados, entre eles a Telemar Participações, a Telecom Italia Mobile e a Brasil Telecom.
Castello Branco disse que o movimento de aquisições tem menos a ver com preço baixo e mais com a oportunidade de completar uma estratégia de negócios. “Muitos compradores não querem bugiganga. Ninguém compra ativo simplesmente porque está barato”, comentou.
O cenário da telefonia celular no Brasil vem se definindo a partir da combinação de desistências de investidores estrangeiros com a disposição de outros grupos de comprar ativos e licenças para garantir escala nacional na operação do serviço.
A Brasilcel, maior grupo do país, anunciou em janeiro a compra da Tele Centro Oeste em uma transação que pode chegar a R$ 3,4 bilhões. A Brasilcel é formada pelas operadoras da Telesp Celular Participações, da Portugal Telecom, e as unidades locais da espanhola Telefónica Móviles .
Outro grupo que vem se fortalecendo é a Telecom Américas, controlada pela mexicana América Móvil. A empresa fez aquisições nos últimos anos, incluindo, no início deste mês, a BSE por US$ 180 milhões, que a colocaram como a segunda maior operadora de celular do país.
Os investidores também têm optado pela compra de licenças, como a TIM, que se tornou a primeira empresa com cobertura nacional, e a Telemar, dona da maior operadora de telefonia fixa do país, que lançou a Oi no serviço móvel.
Um quinto grupo é comandado pelo gestor de recursos Opportunitty, que deve unir a futura operação móvel da Brasil Telecom, empresa de telefonia fixa da região centro-sul, à Telemig Celular e à Amazônia Celular.
O desencanto de alguns estrangeiros é decorrente de decisões financeiras e técnicas que debilitaram a capacidade de investimentos num mercado em evolução tecnológica constante.
A maior parte das operadoras brasileiras opera numa tecnologia que tem seus dias contados, a TDMA. Os 21 milhões de brasileiros que são clientes dessas operadoras terão anos pela frente para aderir ao que se convencionou chamar de migração tecnológica.
Quantos anos esse processo vai demorar depende muito do poder de investimento das empresas, que poderão optar entre a tradicional (embora recente no Brasil) tecnologia européia GSM e a CDMA, predominante nos Estados Unidos. As duas tecnologias terão evolução.
Profissionais do setor acreditam que as redes TDMA vão conviver com as demais tecnologias ainda por 4 a 6 anos, como afirmou recentemente o diretor de grandes contas da TIM Brasil, Hélder de Azevedo. A TIM já está construindo uma rede GSM paralela à TDMA.
“Não há previsão de haver uma transição turbulenta de tecnologia”, comentou o gerente de pequenas e médias empresas da TIM, Ricardo Erthal, para tranquilizar os mais de 5 milhões de clientes TDMA do grupo no Brasil.
Pode não haver turbulência à vista, mas as opções de aparelhos nessa tecnologia vêm se reduzindo, como reconhece o diretor da Divisão de Aparelhos Celulares da Samsung, Oswaldo Mello Neto.
A Sony Ericsson, por exemplo, desistiu de produzir ou importar aparelhos TDMA. O foco agora é o GSM. Ainda assim, o concorrente da Samsung acredita que nos próximos cinco anos ainda haverá demanda e, portanto, potencial para o desenvolvimento e comercialização de aparelhos TDMA.
“Ninguém tem dúvida que TDMA está ladeira abaixo. A questão é o grau de inclinação. Acho que a ladeira não é tão íngreme”, comentou o diretor da Samsung à Reuters.
Os números do setor mostram que ele pode ter razão. Dos 34 milhões de clientes de telefonia celular do país, 600 mil ainda usam os antiquíssimos aparelhos analógicos, que não têm serviços de identificação de chamada ou mensagens de texto, mas funcionam normalmente para conversar.


