24/01/2003 10h09 – Atualizado em 24/01/2003 10h09
MOSCOU – Ambos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com poder de veto sobre qualquer resolução, a Rússia e a China fizeram alertas veementes, nesta quinta-feira, contra uma eventual tentativa dos Estados Unidos de iniciar por conta própria uma guerra contra o Iraque.
O Canadá, país membro da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, também se manifestou contra uma ação militar independente de uma autorização expressa das Nações Unidas.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou a telefonar a seu colega norte-americano, George W. Bush, para lembrar que o Conselho de Segurança é soberano na decisão sobre uma ação militar.
Segundo a agência Interfax, a Rússia deixou claro que não apoiará uma operação militar unilateral contra o Iraque.
Na conversa com Bush, Putin manifestou que qualquer avaliação da situação no Iraque tem que se basear na conclusão dos inspetores de armas da ONU em missão no país.
Também o ministro do Exterior russo, Igor Ivanov, afirmou não haver motivos para o uso da força neste momento.
“Ainda há liberdade de ação diplomática e política para solucionar a questão do Iraque”, declarou Ivanov em visita à Grécia.
Em Pequim, o governo chinês informou que a posição do país a respeito de uma guerra contra o Iraque é “extremamente próxima” à da França, ou seja: todos os esforços possíveis devem ser empreendidos para se evitar o conflito.
Em conversa com jornalistas, a porta-voz do Ministério do Exterior, Zhang Qiyue, disse que a China está “preocupada e incomodada com a mobilização militar em grande escala” no Golfo Pérsico.
Embora tenha votado, em novembro passado, a favor da resolução da ONU que deu ao Iraque a última chance de acabar com as armas de destruição em massa ou enfrentar “conseqüências sérias”, a China defendeu, repetidamente, uma solução diplomática para o impasse.
No começo da semana, o ministro do Exterior chinês, Tang Jiaxuan, pronunciou-se a favor da extensão do prazo para o trabalho dos inspetores de armas da ONU no Iraque.
Canadá não vê razão para guerra
Em entrevista nesta quinta-feira ao canal de televisão CBC Newsworld, o ministro das Relações Exteriores do Canadá, Bill Graham, disse que o governo de seu país não vê uma justificativa para a guerra e manifestou apoio à posição da França e Alemanha contrária a um ataque dos Estados Unidos ao Iraque sem o aval da ONU.
“O Canadá não acha que existe atualmente justificativa para uma guerra contra o Iraque, porque a equipe de inspetores de armas das Nações Unidas não terminou seu trabalho”, acrescentou Bill Graham.
“Concordo com as análises francesa e alemã a respeito, não podemos justificar uma guerra”, disse, ao ser indagado sobre a posição conjunta assumida contra a guerra pelos dirigentes da França e da Alemanha.
O chanceler fez a ressalta de que uma ação militar poderá ser justificada se a ONU comprovar a existência de armas de destruição em massa no Iraque.
Na manhã desta quinta-feira, França e Alemanha insistiram que se empenharão ao máximo para evitar uma guerra no Iraque, em reação a críticas do secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, que na véspera havia declarado que os dois países são um “problema” e estão em descompasso com a maior parte da Europa.
Falando para um grupo de estudantes franceses e alemães em Berlim, o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, afirmou que ele e o presidente da França, Jacques Chirac, rejeitam a visão de que uma guerra seria inevitável.
“Nós dois somos da opinião de que não se pode aceitar nunca que uma guerra seja inevitável – e o presidente francês disse isso muito claramente ontem”, reagiu Schroeder, que estava sentado ao lado de Chirac numa cerimônia para marcar o 40° aniversário do tratado de amizade franco-alemão.
“A guerra não pode nunca ser considerada inevitável”, reiterou. “Tudo tem que ser feito para se conseguir a implementação da resolução (da ONU) por meios pacíficos. Essa é a posição comum da França e da Alemanha e nós não seremos desviados dela”.
“Velha Europa”
Na quarta-feira, Rumsfeld declarou que franceses e alemães representam, hoje, o que chamou de “a velha Europa”.
“A Alemanha tem sido um problema e a França também”, disse Rumsfeld, que já atuou como embaixador na Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
“Mas, deve-se olhar para o vasto número de outros países europeus”, acrescentou. “Eles não estão com a França e a Alemanha. Eles estão com os Estados Unidos”.
Rumsfeld observou então que Alemanha e França representam “a velha Europa” e que a expansão da Otan nos últimos anos significa que “o centro de gravidade está mudando para o leste”.
O secretário da Defesa dos Estados Unidos referia-se aos países do leste europeu, antigas nações socialistas, que aderiram à aliança atlântica, como Hungria, Polônia e República Checa, hoje membros da Otan, organização formada por 19 países.
As demais nações que integram a Otan são Bélgica, França, Irlanda, Noruega, Turquia, Canadá, Alemanha, Itália, Grã-Bretanha, Grécia, Luxemburgo, Portugal, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda e Espanha.
“Decisões difíceis” a caminho
O Conselho de Segurança da ONU recebe na próxima segunda-feira um relatório sobre o trabalho de inspeção no Iraque. Funcionários da ONU já ressaltaram que o relatório será uma atualização do trabalho feito, não tendo caráter definitivo.
Porém, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, em mais um indício do propósito dos Estados Unidos de não dar mais tempo ao trabalho dos inspetores da ONU, disse aos membros do Conselho de Segurança que “decisões difíceis” serão tomadas, após a análise do relatório.
Além disso, em Washington, o presidente Bush já se pronunciou nesta quarta-feira como se a preocupação agora fosse com o desenvolvimento das ações militares, advertindo que “haverá sérias conseqüências para qualquer general iraquiano que recorra ao uso de armas de destruição em massa”, contra forças norte-americanas ou vidas inocentes”.
“Se fizerem isso, quando o Iraque for libertado, vocês serão tatados e perseguidos como prisioneiros de guerra”, disse Bush.
Fonte: CNN