11/11/2002 09h51 – Atualizado em 11/11/2002 09h51
A fusão entre o típico rodízio gaúcho e a culinária tradicional chinesa tem se mostrado uma receita de sucesso infalível no mercado gastronômico chinês.
No início, os restaurantes eram comandados por brasileiros, pioneiros em um mercado de mais de um bilhão de bocas, ávidas por descobrir a culinária internacional.
O sucesso desses primeiros negócios abriu os olhos de empreendedores chineses e, em menos de cinco anos, mais de cem churrascarias já foram abertas por toda a China.
Nos novos restaurantes, a tradição gaúcha divide o espaço com especialidades chinesas como a carne de cachorro na brasa.
Concorrência
Na churrascaria Latina, carne de cachorro não entra.
“O chinês come de tudo: cobra, cachorro, insetos, mas temos um compromisso com a tradição gaúcha e nunca vamos servir carne de cachorro”, disse João Carlos Dutra, gerente da churrascaria Latina, aberta há quatro anos em Xangai.
Ele já perdeu a conta do número de funcionários que deixaram a Latina para abrir seus próprios negócios.
“Eles vêem o trabalho aqui como um curso. Aprendem tudo para depois montar seus próprios rodízios. Muitos viajam para o Brasil para visitar churrascarias e para comprar objetos de decoração”, disse o gerente da Latina, que tem seis filiais na China.
Dagama serve abacaxi e também cachorro na brasa
João Carlos contou também que um número cada vez maior de empresários chineses têm procurado a Latina para abrir filiais em províncias distantes da China.
“Acabamos de abrir uma perto da fronteira com o Uzbequistão. Mas negociamos com cuidado porque, se deixar, o chinês quer sair abrindo uma atrás da outra, o que acaba com a qualidade do negócio. Tem muita gente se dando bem por aí assim”, disse Dutra, sem esconder o alvo de sua alfinetada: a concorrente Dagama.
Sucesso
Aberta por um ex-churrasqueiro da Latina, a Dagama é um sucesso em Xangai.
Em menos de um ano, desde que a primeira churrascaria foi aberta, os donos chineses já estão abrindo a terceira churrascaria.
Na principal filial de Xangai, há até fila de espera na hora do almoço.
“Pegamos a tradição brasileira e demos um toque chinês. Essa é a receita do nosso sucesso”, disse o gerente Yan Zhi Min.
Além da carne de cachorro, a Dagama serve pratos típicos chineses como porco agridoce, bolinhos, panquecas e macarrões.
“Eu adoro comer aqui na hora do almoço. A música brasileira é muito relaxante. O Brasil deve ser um país maravilhoso”, disse uma cliente, enquanto saboreava uma picanha com uma porção de macarrão chinês.
Música cubana
A tal música brasileira relaxante era, na verdade, o sucesso cubano Guantanamera, e os músicos que animavam o rodízio, do Brasil, só tinham a roupa.
Os dois músicos vestiam o traje típico do Rio Grande do Sul: a bombacha (calça), a guaiaca (cinturão que serve como bolsa) e o lenço no pescoço, mas um deles era cubano e outro, que usava óculos escuros, era chinês.
“O cliente não nota a diferença. O importante é o clima” disse Yan Zhi Min.
Cheirinho irresistível
Decorada com mapas do Brasil e fotos do Rio de Janeiro, a Dagama recebe cerca de 600 clientes por dia -o dobro de fregueses da Latina- que pagam 68 yuan (cerca de RS$ 30) pelo rodízio, enquanto a Latina cobra 98 yuan (cerca de RS$ 45).
“Já experimentei de tudo: comida italiana, francesa, indiana, mas a brasileira é minha preferida, depois da chinesa, é claro. Quando passo por aqui na hora do almoço e sinto esse cheiro de churrasco, não resisto”, disse o bancário Wang Liu, de 34 anos.
“Não havia praticamente nenhum restaurante estrangeiro aqui dez anos atrás. Agora, que estamos com mais dinheiro, vários estão sendo abertos. Como de tudo, só não suporto o Mc Donalddocument.write Chr(39)s. Dá cheiro ruim na boca!”, disse o chinês, rindo, com seus colegas de trabalho.
Para brasileiros como o gaúcho Renato Morbach, 52 anos, que trabalha em Guangzhou, no sul da China, a moda das churrascarias veio a calhar.
“Vivo na China desde 1995. De certa forma, ir a uma churrascaria acaba sendo uma forma de matar as saudades do Brasil”, disse Renato.
Fonte: BBC