31/10/2002 13h08 – Atualizado em 31/10/2002 13h08
RIO DE JANEIRO (CNN) – Ele certa vez confidenciou nunca ter traçado um projeto de vida e, em um de seus mais célebres poemas, alegou que foi predestinado ao nascer. De fato, seguiu o conselho do tal “anjo torto” e se tornou “gauche” na vida: o Brasil comemora o centenário de nascimento de um Carlos Drummond de Andrade mais atual do que nunca.
Drummond, o mais carioca dos artistas das Minas Gerais, nasceu em 31 de outubro de 1902 em Itabira, a cidade rica em minério de ferro onde passou a infância e parte da juventude.
Ainda adolescente, conheceu pela primeira vez o mundo fora de seu reduto natal.
Mandado pela família para estudar em um colégio interno jesuíta em Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, Drummond ganhou concursos literários, mas acabou sendo expulso e obrigado a se retratar das obras publicadas no jornal local.
Foi acusado de “insubordinação mental”.
Doce insubordinado… Ali, começava a despontar o destino descrito em seu “Poema de Sete Faces”: “Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser um gauche na vida”.
Aos 18 anos, Drummond retornou a Minas Gerais e se mudou com a família para Belo Horizonte. Foi o estopim para o início de uma carreira singular como contista e poeta, um símbolo do modernismo.
Drummond virou colaborador do “Diário de Minas”, mas um desejo dos pais colocou um breve freio na veia de escritor. Por três anos, estudou e se formou odontologista e farmacêutico, concluindo estudos na histórica Ouro Preto.
O diploma ficou na gaveta para sempre. Saído das salas de aula, Drummond pôde enfim dar vazão à alma de escritor. Junto com outros autores, fundou “A Revista”, de cunho nacionalista.
Em 1928, assumiu o cargo de redator-chefe do “Diário de Minas”. No mesmo ano, nasceu Maria Julieta, sua filha com a esposa Dolores e que, mais tarde, viria a ser sua maior companheira e parceira na literatura.
O amor entre pai e filha, origem de uma inesgotável fonte de criação, seguiu-se admiravelmente sublime até que um câncer levou Maria Julieta, em 1987. Apenas 12 dias depois, o escritor também morreu. Do coração.
Foi na capital mineira, em 1930, que Drummond lançou seu primeiro livro, “Alguma Poesia”.
A mudança para o Rio de Janeiro, que se tornaria a inspiração de grandes obras, deu-se em 1934, na condição de funcionário público.
Drummond assumiu a chefia de gabinete do então ministro da Educação Gustavo Capanema e serviu ao governo até 1945.
Em 1962, aposentou-se, após trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nas décadas seguintes, foi cronista do “Correio da Manhã” e do “Jornal do Brasil”.
Introspecção
Drummond em circulação – Conhecido pela obsessão em buscar a perfeição na forma de seus poemas, Drummond era também um ser introspectivo, calado e por vezes melancólico – uma inibição que não o impediu de ser samba-enredo da Estação Primeira da Mangueira em 1987. A escola verde e rosa acabou campeã do Carnaval carioca.
O questionamento da vida e a constante inquietação podem ser exemplificados nos versos de “José”: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?”
Aclamado no Rio, Drummond jamais retornou à sua cidade natal.
A resistência ao reencontro refletia cada palavra de “Confidência do Itabirano”, em que dizia ser triste, orgulhoso e “de ferro”. E o poeta desabafou, dizendo que Ibatira era um retrato na parede, que doía…
“Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas”, escreveu, revelando a dureza de uma alma aturdida, mas ainda perplexa com as desigualdades do mundo.
Quem lê Carlos Drummond de Andrade para buscar esperança na vida, talvez não a encontre. O “Soneto da Perdida Esperança” dá o tom do poeta: “Perdi o bonde e a esperança/ Volto pálido para casa”.
Entretanto, Drummond é poeta brasileiro mais analisado de todos os tempos. E, mesmo amarga, a sua visão de mundo reconforta. Tanto que é, entre todos os arquitetos da palavra da língua portuguesa, o mais lido e o mais amado.
Este reconforto foi buscado pelo presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que leu um livro de Drummond, com o qual foi fotografado, nos momentos angustiantes e decisivos de sua campanha, à espera do resultado das urnas.
Era Drummond o poeta preferido do ex-presidente José Sarney, que mandou estampar um de seus poemas – “Canção Amiga” – na nota de 50 cruzados novos, lançada em 1989 e que circulou até 1992.
“Eu preparo uma canção/em que minha mãe se reconheça/todas as mães se reconheçam/e que fale como dois olhos…” – o poema também foi musicado pelo compositor mineiro Milton Nascimento.
A obra de Drummond
O escritor por Candido Portinari (1936)
A obra de Carlos Drummond de Andrade foi traduzida para 13 idiomas, desde o inglês e o francês até o sueco, o checo e o latim.
Confira todos os títulos, por estilos literários, incluindo publicações póstumas:
Poesia
Alguma poesia, 1930.
Brejo das almas, 1934.
Sentimento do mundo, 1940.
Poesias (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José), 1942.
A rosa do povo, 1945.
Poesia até agora (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas), 1948.
A máquina do mundo, 1949 (exemplar único).
Claro enigma, 1951.
A mesa, 1951.
Viola de bolso, 1952.
Fazendeiro do ar & Poesia até agora (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar), 1954.
Viola de bolso; 2ª. Edição aumentada de Os Cadernos de Cultura, 1955.
Soneto da buquinagem, 1955.
Ciclo, 1957.
Poemas (Alguma poesia, Brejo das Almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo), 1959.
Lição de coisas, 1964.
Obra completa (Estudo crítico de Emanuel de Moraes, fortuna crítica, cronologia e bibliografia), 1964.
Versiprosa, 1967.
José & Outros (José, Novos poemas, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, 4 Poemas, Viola de bolso II), 1967.
Boitempo & A falta que ama, 1968.
Reunião (Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Clara enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição de coisas, 4 Poemas), 1969.
D. Quixote (Glosas a 21 desenhos de Cândido Portinari), 1972.
As impurezas do branco, 1973.
Menino antigo (Boitempo II), 1973.
Minas e Drummond (ilustrações de Yara Tupinambá, Wilde Lacerda, Haroldo Mattos, Júlio Espíndola, Jarbas Juarez, Álvaro Apocalypse e Beatriz Coelho),1973.
Amor, amores, 1975.
A visita, 1977.
Discurso de primavera e algumas sombras, 1977.
O marginal Clorindo Gato, 1978.
Nudez, 1979.
Esquecer para lembrar (Boitempo III), 1979.
A paixão medida, 1980.
Nova Reunião – 19 livros de poesias, 1983.
O elefante, 1983.
Caso do vestido, 1983.
Corpo, 1984.
Mata Atlântica, 1984.
Amor, sinal estranho, 1985.
Amar se aprende amando, 1985.
Pantanal, 1985.
Boitempo I e II, 1986.
O prazer das imagens, 1987.
Poesia Errante: derrames líricos, e outros nem tanto ou nada, 1988.
Arte em Exposição, 1990.
O Amor Natural, 1992.
A Vida Passada a Limpo, 1994.
Rio de Janeiro, 1994.
Farewell, 1996.
A Senha do Mundo, 1996.
A Cor de Cada um, 1996.
Crônica
Fala, amendoeira, 1957.
A bolsa & a vida, 1962.
Cadeira de balanço, 1966.
Caminhos de João Brandão, 1970.
O poder ultrajovem, 1972.
De notícias & não notícias faz-se a crônica, 1974.
Os dias lindos, 1977.
Crônica das favelas cariocas, 1981.
B
oca de luar, 1984.
Crônicas de 1930/1934 (assinadas com os pseudônimos Antônio Crispim e Barba Azul), 1984.
Moça deitada na grama, 1987.
Auto-Retrato e Outras Crônicas, 1989.
O Sorvete e Outras Histórias, 1993.
Vó Caiu na Piscina, 1996.
Conto
O gerente, 1945.
Contos de aprendiz, 1951.
70 historinhas, 1978.
Contos plausíveis, 1981.
O pipoqueiro da esquina, 1981.
História de dois amores, 1985.
Criança dagora é fogo, 1996.
Ensaio
Confissões de Minas, 1944.
Passeios na ilha, 1952.
Minas Gerais, 1967.
A Lição do amigo (cartas de Mário de Andrade – introdução e notas de Drummond), 1982.
Em certa casa da rua Barão de Jaguaribe, 1984.
O observador no escritório, 1985.
Tempo, vida, poesia, 1986.
Saudação a Plínio Doyle, 1986.
O avesso das coisas, 1987.
Fonte: CNN