30/10/2002 15h28 – Atualizado em 30/10/2002 15h28
Após passar fome, o principal acusado de assassinar o padre e professor universitário José de Souza Fernandes, 48, em Minas, se entregou nesta madrugada à polícia. O lavrador José Cláudio da Silva Rocha, 22, o Bem-te-vi, estava foragido havia 10 dias.
Ele disse à polícia que permaneceu o tempo todo escondido em um matagal em Sarzedo, região metropolitana de Belo Horizonte, com ferimentos no pé e passando fome.
O padre Fernandes tinha doutorado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e era considerado pela Arquidiocese Metropolitana de Belo Horizonte como referência nacional na área de bioética.
O padre foi assassinado no último dia 20, após deixar a casa de parentes na cidade de Brumadinho. Segundo a polícia, um dos acusados do crime, o servente de pedreiro Pedro Roberto Soares, 23, teria um caso amoroso com o padre.
Fernandes foi enforcado e morreu após ser atingido com dois tiros, um na cabeça e outro na nuca. Os assassinos ainda passaram com a camionete D-20 do padre por cima do corpo da vítima.
Segundo a polícia de Minas, no dia do crime Soares e Bem-te-vi pediram carona ao padre. Ele foi rendido porque os assassinos tinham o intuito de roubar o carro e pertences pessoais do teólogo. A camionete seria vendida por R$ 4.000.
O corpo de Fernandes foi encontrado no dia seguinte. Como estava desfigurado, foi encaminhado sem identificação ao IML. Segundo o delegado Élson Matos, da Delegacia de Operações Especiais da Polícia Civil, familiares do teólogo falaram sobre o suposto relacionamento amoroso que ele manteria com Soares, o que colaborou com a prisão do rapaz e de outros acusados de envolvimento no crime.
Depoimento
Segundo o delegado, Bem-te-vi confessou ter atirado duas vezes contra o padre. No entanto, ele afirmou que foi pressionado por Soares, o mentor do crime.
O acusado disse que atirou porque Soares apontou uma arma para sua cabeça e obrigou-o a matar Fernandes. A polícia, no entanto, não acredita na versão do crime e a suposta arma usada por Soares não foi encontrada.
Bem-te-vi negou que tenha passado com a camionete por cima do corpo do padre, versão defendida por Soares. A polícia deverá realizar uma acareação entre os dois.
Remorso
Bem-te-vi disse ainda que não sabia quem era o padre e que acreditava que iria pegar uma carona para ir a uma festa. O acusado disse que sentiu remorso por causa da “covardia que cometeu”. “Mesmo sem querer, ajudei a tirar a vida de uma pessoa que salvava almas”, disse à polícia.
Bem-te-vi e Soares vão responder por latrocínio (matar para roubar), ocultação de cadáver e formação de quadrilha.
Outros acusados de envolvimento no crime foram detidos. Pedro Paulo César Gomes, 38, Aloisio Costa Alves, 22, Wanderson Alberto da Silva, 19, Claudemir Pereira de Mendonça, 25, e Maciano Pereira Moreira, 20, seriam responsáveis por se livrarem da camionete e responderão por receptação e formação de quadrilha.
A polícia procura agora por um rapaz identificado como Célio, conhecido como Loirinho Cigano, também acusado de receptação.
Fonte: Folha Online