14/11/2002 09h28 – Atualizado em 14/11/2002 09h28
BRASÍLIA – O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que deve anunciar seu Ministério de uma só vez na primeira quinzena de dezembro, quer ter no primeiro escalão o PL, o PSB, o PCdoB, o PPS, o PDT e o PMDB, num acordo que envolverá o apoio de suas bancadas no Congresso. Mas Lula manterá nas mãos de petistas de confiança postos estratégicos como a Fazenda, os ministérios da casa e as pastas da área social, como a secretaria de combate à fome. O presidente eleito tem dado aos aliados poucas pistas sobre nomeações, mas deixou claro que não abre mão da presença, no Planalto ou na Esplanada dos Ministérios, de companheiros como Antônio Palocci, José Dirceu e José Genoino.
- Esses que sempre me acompanharam vão estar comigo no governo – tem repetido Lula a interlocutores.
Com isso, a cúpula petista está inclinada a indicar o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) para a presidência da Câmara, lugar que estava reservado para Dirceu. Há outros nomes, mas João Paulo, atual líder, agrada a direção do partido e a maioria da bancada. Dirceu iria para a Casa Civil como principal articulador do governo.
Palocci é cotado para a Fazenda ou Planejamento
Com seu perfil técnico, Antônio Palocci era cotado para o Planejamento, mas pode ir parar na Fazenda. Coordenador da transição, vem ganhando credibilidade como interlocutor do novo governo para questões econômicas. Fala com desenvoltura sobre combate à inflação, política econômica e FMI, dando tranqüilidade ao mercado. Se continuar desempenhando bem a missão, credencia-se naturalmente como porta-voz de Lula na Fazenda, que é justamente o que ele deseja ter lá.
Genoino vem sendo alvo de especulações para o Ministério da Defesa, mas esse não deve ser seu destino. Embora tenha a simpatia de alguns setores militares, poderá sofrer oposição de outros por sua condição de ex-guerrilheiro. Negociador experiente no Congresso, será aproveitado na articulação política, seja no Planalto – onde pode ocupar a secretaria-geral – ou no Ministério da Justiça, que cuida ainda da segurança, uma de suas áreas de interesse.
Se nem aos mais íntimos Lula vem dando certeza sobre futuros endereços, muito menos aos partidos que tem convidado para participar do governo. Antes de tratar de nomes, está estabelecendo critérios e mandando recados. Um deles é de que a participação no governo envolve apoio congressual. Outro: quem estabelece os espaços de cada partido e escolhe os nomes é ele.
- Vou ouvir e consultar todo mundo. Mas quem vai escolher sou eu – disse Lula a um amigo esta semana.
O acordo político que vem sendo articulado para dar sustentação ao governo tem duas linhas. De um lado, os petistas consideram fundamental governar com partidos como PSB, PPS e PDT, até por uma questão simbólica. São os aliados de sempre, que asseguram feição mais à esquerda ao futuro governo e que podem, sobretudo, provocar grandes estragos de imagem se começarem a ir a plenário esbravejar contra o novo Planalto. Estarão na Esplanada dos Ministérios.
Já o interesse no PMDB é mais pragmático. Lula precisa de seus votos no Congresso para governar. Nos próximos dias, terá nova conversa com os peemedebistas e reafirmará que não vai interferir na escolha do candidato a presidente do Senado.
Informações de que o presidente eleito e Dirceu estariam trabalhando pela candidatura de José Sarney, aliado de primeira hora na eleição, provocaram mal-estar na cúpula peemedebista, que prefere o senador Renan Calheiros.
Dirigentes do PMDB telefonaram na terça-feira a Dirceu e obtiveram dele a garantia de que o PT ficará fora da disputa.
Outro ponto que os petistas ressaltam é o caráter institucional das conversas com os partidos que vão integrar a base. Nas conversas, têm dito que não vão negociar separadamente com grupos ou facções. Querem evitar investidas dos que alegam que, para contentar setores de uma mesma legenda, é preciso dar um ministério a cada um.
Fonte: Jornal O Globo



