11/07/2003 11h20 – Atualizado em 11/07/2003 11h20
ENTEBBE, Uganda – A Agência Central de Inteligência americana (CIA) ficou sob fogo cruzado nesta sexta-feira, em meio à controvérsia cada vez maior sobre a suposta manipulação de dados para justificar a campanha de George W. Bush e da aliada Grã-Bretanha contra o Iraque de Saddam Hussein.
O presidente George W. Bush disse que sua acusação de que o Iraque havia tentado comprar material nuclear da África, feita no discurso sobre o Estado da União, em janeiro passado, foi aprovada por “seus serviços de inteligência” e a assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice disse que as palavras específicas usadas no pronunciamento tinham o aval da CIA.
A Casa Branca admitiu esta semana que foi um erro dizer que Saddam Hussein tinha tentado comprar urânio do Níger, porque os documentos sobre a suposta transação eram falsos. Bush, por sua vez, repetiu que estava certo quando decidiu atacar o Iraque, mas se negou a responder perguntas de jornalistas sobre como a afirmação falsa foi parar no seu discurso de 28 de janeiro.
- Fiz um discurso à nação que foi liberado pelos serviços de inteligência – disse Bush em Kampala, onde se encontrou com o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, parte de uma visita de cinco dias à África. – (O discurso) fala em detalhes ao povo americano sobre os perigos representados pelo regime de Saddam Hussein. Meu governo tomou as medidas apropriadas para responder a esses perigos.
Numa clara tentativa de aliviar a pressão sobre a Casa Branca, Rice, uma das mais próximas aliadas de Bush, realizou horas antes uma longa – e rara – sessão com repórteres para falar sobre o assunto do urânio, na qual afirmou que a CIA havia aprovado o discurso de Bush antecipadamente.
- Se o diretor da CIA (George Tenet) tinha qualquer problema com essa frase ele não nos informou – disse ela a jornalistas, a bordo do avião presidencial Air Force One, a caminho de Uganda.
Agravando ainda mais a situação, seus comentários vieram à tona um dia depois de fontes de alto escalão do governo americano terem afirmado ao jornal “Washington Post” que antes e depois do discurso sobre o Estado da União (pronunciado em 28 de janeiro de 2003) funcionários dos serviços secretos americanos manifestaram dúvidas sobre um relatório britânico que o presidente citou no discurso, para justificar as acusações.
Estas dúvidas da CIA, segundo o “Post”, foram passadas tanto a oficiais britânicos quanto a várias agências do governo americano antes de Bush fazer o discurso em rede nacional. De acordo com Rice, entretanto, a CIA fez apenas uma objeção à frase envolvendo a suposta tentativa de compra pelo Iraque de urânio yellow cake – uma forma leve de urânio processado.
- Algumas coisas específicas sobre quantidade e lugar foram retiradas – disse ela aos jornalistas no avião. – Com as mudanças na frase, o discurso foi liberado. – A agência não disse que queria a frase (sobre a compra de urânio do Níger) fora – atestou.
O imbroglio fez surgir dúvidas sobre o futuro do diretor da CIA. Em sua reunião com os jornalistas, apesar de ter afirmado que a Casa Branca tinha “absoluta confiança” em Tenet, Condoleezza referiu-se à sua gestão no passado:
- Ele serviu muito bem. O diretor da CIA, George Tenet, foi um diretor maravilhoso. Não estou culpando ninguém.




