24/03/2003 14h40 – Atualizado em 24/03/2003 14h40
A Liga Árabe realizará na segunda-feira um encontro de ministros do Exterior para discutir a guerra no Iraque em meio às divisões na organização e à falta de prestígio dos líderes da região nas decisões sobre a guerra.
A expectativa da maioria dos analistas é que esse encontro produza apenas declarações repetitivas condenando o ataque, que não devem ter qualquer impacto sobre a ação militar liderada pelos americanos.
“Se os Estados Unidos não ouvem as Nações Unidas, por que ouviriam a Liga Árabe?”, disse à BBC Brasil o cientista político da Universidade do Cairo, Mostafa Elwi.
“Na melhor das hipóteses, eles vão superar divisões e pedir um cessar-fogo imediato. Mas eles sabem que ninguém vai escutar esse apelo. O que eles querem com isso é apaziguar os ânimos da população”, acrescentou o cientista político da Universidade Americana do Cairo, Waleed Kaziha.
Protestos
E os ânimos entre boa parte da população no mundo árabe, principalmente entre os jovens, estão cada vez mais acirrados.
No mesmo dia da reunião da Liga Árabe, por exemplo, estudantes egípcios farão um protesto contra a guerra na principal universidade islâmica da capital.
“Não vamos parar de protestar até que nossa voz seja ouvida. É frustrante ver que os governos árabes não nos escutam e continuam a apoiar os Estados Unidos”, disse Abdul Fayed, estudante de engenharia, de 22 anos, que vai participar dos protestos na universidade de Al Ashar na segunda-feira.
Para ele, as declarações que devem sair do encontro da Liga Árabe não passam de retórica vazia.
“Queremos que o governo egípcio pressione os governos que estão colaborando com os Estados Unidos para que eles expulsem as tropas americanas de seus territórios”, disse o estudante.
Racha
Segundo Mostafa Elwi, esse tipo de pressão, no entanto, só serviria para provocar um racha na Liga Árabe, contribuindo para a perda de prestígio da organização, fundada em 1945 e formada por 22 países mais a Palestina (considerada um Estado independente pelo grupo).
“Os ministros vão tentar amanhã evitar o tema do apoio militar de países como o Qatar e o Kuwait à guerra. Se entrarem nesse terreno, o racha será certo”, disse Elwi, acrescentando que o ministro do Exterior iraquiano, Naji Sabri deve estar presente na reunião.
Segundo Elwi, ao evitar o assunto mais importante para a população, o encontro deve ter um impacto limitado sobre a revolta da população com a guerra e com a posição de países como o Egito e a Jordânia, que fazem malabarismos para equilibrar a revolta da população com a necessidade de manter a aliança que têm com os Estados Unidos.
Segundos os dois analistas, muitos governos árabes estão preocupados agora com a possibilidade de que eles sejam próximos alvos de ataques americanos.
“A postura árabe hoje é totalmente defensiva. Muitos países como a Síria e a Arábia Saudita temem ser alvo de uma ação americana. Essa posição delicada limita ainda mais a reação do mundo árabe à guerra”, disse o professor Waleed Kaziha.
O risco nesse caso, esclarece Kaziha, é que qualquer desafio aos Estados Unidos feito por um governo árabe possa botar esse governo no topo da lista de próximos alvos de um ataque.
O encontro da Liga Árabe está previsto para começar na segunda-feira às 10h na sede da organização no Cairo.






