11/11/2002 15h11 – Atualizado em 11/11/2002 15h11
O diretor de um filme contundente sobre a escravização de mulheres em lavanderias administradas por ordens católicas na Irlanda disse no sábado que a Igreja Católica deve um pedido de perdão às mulheres.
Cerca de 30 mil mulheres irlandesas trabalharam nas lavanderias da ordem das irmãs Magdalene (Maria Madalena), criadas na Irlanda em 1848 para a internação de prostitutas e de mulheres “perdidas”, visando reformar seu caráter.
Algumas das mulheres passaram praticamente toda sua vida adulta nas instituições, a última das quais foi fechada em Dublin apenas em 1996.
Peter Mullan, diretor do filme “The Magdalene Sisters”, falou com a Reuters em entrevista telefônica no dia da estréia do filme no Festival de Cinema de Londres e disse que gostaria que a igreja pedisse desculpas às mulheres que foram submetidas a essa provação.
Criticado pelo Vaticano como “provocação cheia de ressentimento”, o filme, feito com orçamento pequeno, foi premiado com o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, em setembro.
O longa está em cartaz na Itália há um mês e na Irlanda há duas semanas, sempre com os cinemas lotados. Na Irlanda, está no terceiro lugar em termos de bilheteria, perdendo apenas para “Dragão Vermelho” e “Fora de Controle”.
document.write Chr(39)O que espanta é que estamos sendo informados de que o público, na Irlanda, inclui pessoas de todas as faixas etárias e também grande número de religiosos”, disse o diretor, que tem 43 anos, é natural de Glasgow e foi criado como católico. “É incrível, considerando a reação do Vaticano.”
Para Mullan, boa parte da receptividade que o filme vem tendo na Irlanda se deve ao fato de o país ter mudado muito nos últimos 10 a 15 anos.
Apresentado como pseudo-documentário, “The Magdalene Sisters” relata a história de três mulheres jovens enviadas para trabalhar numa das lavanderias nos anos 1960, depois de terem problemas com a moral e os costumes da época.
Uma delas foi violentada por um rapaz embriagado num casamento, outra teve um filho sem ser casada e a terceira simplesmente gostava de paquerar e chamar a atenção dos rapazes.
As três são reduzidas à virtual escravidão nas lavanderias, até que uma delas é resgatada por sua família e as duas outras fogem.
A professora de história social Frances Finnegan, que escreveu um estudo sobre as lavanderias Magdalene, disse que o filme não exagera a brutalidade psicológica exercida nessas instituições.
“Essas mulheres eram praticamente encarceradas, e de forma ilegal, nunca eram informadas sobre seus direitos e muitas delas passavam o resto de suas vidas sem conseguir sair”, disse ela.
Finnegan falou que as lavanderias acabaram sendo fechadas não porque a sociedade tenha se dado conta de que eram desumanas, mas porque deixaram de ser úteis à igreja.
“Elas foram fechadas devido à introdução das máquinas de lavar roupa. Quando as lavanderias deixaram de ser lucrativas, a igreja deixou de precisar de pecadoras para trabalhar nelas.”
Fonte: Reuters