Comparação feita pelo governador Eduardo Riedel com o Rio Mississippi reforça potencial dos rios Paraguai e Paraná como corredores estratégicos para o escoamento da produção sul-mato-grossense
Mato Grosso do Sul pode estar diante de uma nova etapa de sua logística de transporte. Em meio à expansão da indústria de celulose, ao crescimento da produção agropecuária e à necessidade de reduzir custos operacionais, as hidrovias voltam ao centro das discussões como alternativa estratégica para aumentar a competitividade do Estado nos mercados nacional e internacional.

Durante o Fórum Internacional da Agropecuária, realizado nesta semana em Campo Grande pelo Canal Rural, o governador Eduardo Riedel destacou a importância do transporte hidroviário e comparou o potencial dos rios sul-mato-grossenses ao modelo utilizado nos Estados Unidos, onde o Rio Mississippi desempenha papel fundamental no escoamento da produção agrícola e industrial.

“A hidrovia é um eixo estratégico de competitividade. A movimentação de minério pelo Porto de Corumbá insere o Estado em um contexto logístico internacional, conectando-se a corredores de transporte semelhantes aos observados no Rio Mississippi, nos Estados Unidos, e na região do Rio Paraná até o Delta do Prata”
A declaração reforça uma visão que vem ganhando espaço entre especialistas e investidores: os rios Paraguai e Paraná podem se consolidar como importantes corredores logísticos para Mato Grosso do Sul, integrando diferentes modais de transporte e reduzindo a dependência do sistema rodoviário.
A hidrovia é uma pauta interessante para a operação de minério, em Corumbá, onde estão instaladas as operações da LHG Mining, Vetria Mineração, 3ª Mining e Vetorial Siderurgia. A região é reconhecida pela alta qualidade do ferro e manganês e a o modal hidroviário pode ser uma alternativa economicamente viável e estratégica para a logística de escoamento da produção.
Paraná e Paraguai: os grandes eixos hidroviários de MS
Enquanto o Rio Paraguai já possui relevância histórica por meio da Hidrovia Paraguai-Paraná e do Porto de Corumbá, o Rio Paraná desponta como uma das principais apostas para atender à crescente demanda do setor industrial, especialmente da cadeia de celulose instalada na Costa Leste do Estado.
O Rio Paraná conecta Mato Grosso do Sul ao interior paulista e, posteriormente, ao Porto de Santos por meio de um sistema integrado que combina transporte hidroviário e ferroviário. A rota permite que cargas sejam embarcadas em barcaças, sigam pelos rios Paraná e Tietê até terminais intermodais em São Paulo, como o de Pederneiras, e de lá sejam transportadas por ferrovia até o litoral.
O corredor é visto como uma alternativa eficiente para reduzir custos logísticos e ampliar a competitividade das exportações sul-mato-grossenses.
Bracell aposta na logística hidroviária

O potencial da hidrovia já desperta o interesse de grandes grupos industriais. A Bracell, que está construindo uma nova fábrica de celulose em Bataguassu, estuda utilizar o sistema hidroviário para escoar parte de sua futura produção.
A empresa também apresentou projetos para utilização da estrutura portuária existente na região da Cascalheira, em Três Lagoas, localizada em uma área estratégica próxima ao encontro dos rios Sucuriú e Paraná. O local possui profundidade adequada para operações portuárias e já foi utilizado durante as obras da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias (Jupiá).
Atualmente, a Bracell mantém extensas áreas florestais em Água Clara para abastecer sua unidade industrial de Lençóis Paulista (SP). Toda a madeira é transportada por rodovias por centenas de quilômetros até a fábrica paulista. A utilização de terminais hidroviários pode representar uma alternativa mais eficiente e econômica para parte dessa movimentação.
Experiência já foi utilizada pela Eldorado Brasil
A viabilidade do transporte hidroviário não é apenas uma projeção futura. Quando entrou em operação em Três Lagoas, a Eldorado Brasil utilizou um sistema integrado de logística que combinava barcaças, hidrovia e ferrovia.
Instalada às margens do Rio Paraná, a empresa construiu um terminal portuário próprio para embarcar fardos de celulose em barcaças. A carga seguia pelo Rio Paraná até o Rio Tietê, chegando ao terminal de Pederneiras, no interior paulista. De lá, era transportada por ferrovia até o Porto de Santos para exportação.
No retorno, as embarcações voltavam carregadas com madeira e outros insumos destinados à fábrica, criando uma operação logística de mão dupla.
O modelo demonstrou viabilidade operacional, mas acabou sendo interrompido devido às limitações impostas por períodos de estiagem severa e pela redução do nível dos rios, que comprometeram o calado necessário para a navegação.
Integração continental

Além dos ganhos econômicos, o fortalecimento das hidrovias amplia a integração de Mato Grosso do Sul aos grandes corredores de transporte da América do Sul.
O Rio Paraná conecta-se ao sistema hidroviário do Rio da Prata, formando uma extensa rota navegável que alcança os portos da Argentina e do Uruguai. Já o Rio Paraguai liga a região pantaneira ao mesmo corredor internacional por meio da Hidrovia Paraguai-Paraná, considerada uma das mais importantes da América do Sul.
A comparação feita por Riedel com o Rio Mississippi evidencia justamente essa vocação. Nos Estados Unidos, o sistema hidroviário é responsável por movimentar milhões de toneladas de grãos, combustíveis e produtos industriais, reduzindo custos e aumentando a competitividade da economia.
Para Mato Grosso do Sul, a combinação entre hidrovias, ferrovias e rodovias pode representar um dos principais diferenciais logísticos das próximas décadas. Com a expansão da indústria de celulose, o crescimento da mineração e o avanço da produção agropecuária, os rios Paraná e Paraguai voltam a ser vistos não apenas como recursos naturais, mas como verdadeiras estradas de água capazes de conectar o Estado aos mercados globais.




