27/12/2002 14h56 – Atualizado em 27/12/2002 14h56
Serão 36 horas de viagem para percorrer 2.400 quilômetros do sertão nordestino à capital federal. Mas para quem já viajou pendurado em um pau-de-arara por trajetos ainda mais longos, a distância é um detalhe pouco importante. Para os parentes do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva que vivem em Caetés e Garanhuns (PE), o que importa é estar no Planalto para testemunhar seu mais ilustre representante no momento em que se tornará oficialmente Presidente da República.
A viagem será feita em um ônibus leito, com ar condicionado e televisor, que sairá de Garanhuns às 10h do dia 29 e chegará a Brasília por volta das 22h do dia 30. Nele, estarão 21 parentes de Lula —quatro “primos legítimos” (de 1° grau) com seus filhos, sobrinhos e netos. Outros 25 passageiros também já garantiram seu lugar na caravana, entre amigos de Lula, admiradores e jornalistas que pretendem registrar o momento histórico junto à família do presidente eleito.
A caravana está sendo organizada pelo prefeito de Caetés, José Luiz de Lima Sampaio, o Zé da Luz, como é conhecido na região. “Lula tornou a cidade de Caetés conhecida nacionalmente. Tenho que retribuir levando sua família para assistir a esse momento tão importante”, explica ele, que é o primeiro prefeito petista da cidade.
Lula nasceu no sítio Várzea Comprida, em Garanhuns. Hoje, porém, o local pertence a Caetés —na época, um subdistrito. Os primos de Lula estão espalhados entre Caetés e Garanhuns. “Depois que Lula ganhou a eleição, todo mundo aqui virou primo dele”, ironiza o prefeito. Segundo ele, a “legitimidade sangüínea” dos 21 parentes que tomarão assento em seu ônibus está garantida. Além de primos, Lula possui duas tias legítimas que ainda estão vivas, mas muito idosas para encarar a viagem, conta Zé da Luz.
Os que podem mais pagam para os que podem menos. Com alguns patrocínios de comerciantes da região e com um desembolso maior por parte de alguns passageiros de mais posses, conseguiram custear o aluguel do ônibus e a hospedagem numa colônia de férias do Centro de Treinamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em Valparaíso (cidade satélite do DF). Entre transporte, hospedagem e alimentação, a viagem custará R$ 11.900, informa Marlus Duarte, secretário de Organização do PSB de Pernambuco, que foi indicado pelo prefeito petista para cuidar dos detalhes da caravana. Aqueles que podem —entre eles os jornalistas e os políticos— pagarão R$ 350 pela viagem.
O prefeito de Caetés, que já tinha passagem de avião reservada, desistiu do conforto para puxar a caravana. “Essa viagem é histórica”, justifica ele, que doou R$ 2.000 de seu próprio bolso para viabilizar a ida dos parentes de Lula.
Os passageiros mais ilustres da caravana são os irmãos Manuel (60 anos), Gilberto (55 anos), Antonio (54 anos) e Lindinalva (53 anos) Ferreira de Melo. Eles são filhos de um irmão de dona Lindu, mãe de Lula. Os quatro moram na zona rural, em um sítio vizinho ao que Lula nasceu. Vivem da agricultura —mandioca, milho e feijão— que cultivam nos pedacinhos de terra que dividiram entre si com a morte do pai, seu Sérgio.
Todos conviveram com Lula na infância, mas é Manuel, apelidado por Lula de Manesina, o mais íntimo do presidente eleito. Manuel também veio para São Paulo num pau-de-arara, morou com Lula durante um tempo, também foi metalúrgico em São Bernardo e, como Lula, perdeu um dedo ao manejar uma máquina na metalúrgica.
“Assim que saiu o resultado do segundo turno da eleição, Manuel ligou para Lula, que o atendeu imediatamente”, conta Zé da Luz, para reafirmar a amizade entre os primos. Antônio, irmão de Manuel, confirma a informação. “Ele é quem mais tem contato”. Apesar de estar com apenas quatro anos quando Lula deixou Garanhuns, Antônio guarda lembranças de seu convívio com o primo ilustre. “Nós brincávamos muito por aí, fazíamos de conta que montávamos em cavalos e ficávamos montando um no outro.” Ultimamente Antônio se encontra pouco com Lula, mas diz que, quando se vêem, a intimidade é a mesma da infância. “A gente brinca, caçoa. Parece que não mudou nada.” O último encontro foi logo após a vitória, quando Lula voltou à sua terra natal para agradecer a votação. “Comemos um bode juntos”, conta o primo.
O que de fato mudou, diz Antônio, é que Lula “atingiu um milagre”. “Ninguém podia imaginar que um menino daqui deste sertão, com uma vida sofrida que ele teve, podia chegar onde chegou.” Por conta dessa trajetória, Antônio tem fé de que o Lula presidente terá “pena do povo do Nordeste”. “O povo daqui é muito discriminado pela seca. Tenho muita esperança que isso vai melhorar, que até minha vida vai melhorar.”
Sobre a viagem a Brasília, Antônio diz estar muito ansioso. “A viagem é longa, mas estou acostumado. Já teve pau-de-arara e muita viagem de caminhão.” Aposta que vai chorar, como ocorreu no anúncio da vitória de Lula, em 27 de outubro. “Todo mundo aqui chora, não tem jeito. É como um milagre”, repete.
Ele e seus irmãos esperam poder se encontrar com Lula durante a estadia em Brasília. Antônio sabe que será difícil, mas ouviu dizer que os irmãos de Lula, que vivem em São Paulo, estão tentando organizar um encontro com os primos. “Se Lula não estiver presente, a gente entende. Ele tem muita coisa a tratar de agora em diante.”
Primo rico – Entre o mundaréu de parentes do presidente eleito, a reportagem do PT encontrou um primo rico que faz questão de ir ao Planalto. Mas de avião. José de Moura, 49, é filho de uma prima de Lula. Ele é proprietário de uma empresa de construção civil em Garanhuns e conta que “por graça de Deus” nunca soube o que é passar necessidade.
“Eu tive vida de rico”, diz ele, para logo completar: “Mas não de milionário”. Ao contrário de Lula, quando Moura nasceu, seu pai era bem de vida. Trabalhava na agricultura e comercializava cereais. Suas boas condições financeiras não o impediram de se sensibilizar com a miséria de seu país. “Só sabe resolver as necessidades quem passa por elas. Por isso acredito no Lula.” Moura aposta que seu primo ilustre será “tão bom ou melhor” que Juscelino Kubitschek. “JK não conhecia tanto os problemas do povo quanto Lula conhece.”
Moura não quis levar adiante os estudos. Fez a primeira série primária, “o suficiente para aprender a ler e a escrever”. Hoje se arrepende, mas diz que faz todo o trabalho que um engenheiro faria, só não pode assinar projeto. Também chorou com Lula, diante da TV, quando o presidente eleito foi diplomado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). “Senti a dor dele pela discriminação de não ter diploma.”
O primo rico, que tem cinco irmãos, diz ser o mais próximo de Lula. Conheceu-o depois que o petista ficou viúvo de sua primeira mulher. “Sempre foi muito atencioso”, diz ele, que, antes de ir a Brasília, voará para São Paulo, onde encontrará alguns irmãos de Lula. Da capital paulista, pegará com eles um outro avião rumo à capital federal. “Quero ver ao vivo o primo virar presidente.”
Fonte: MS Notícias