17/01/2003 10h41 – Atualizado em 17/01/2003 10h41
O vice-presidente do Uruguai, Luis Hierro, e o ex-chefe de Estado, Luis Lacalle, criticaram os projetos de criação de um parlamento comum e de uma moeda única do Mercosul, lançados pelos presidentes Luiz Inacio Lula de Silva, do Brasil, e Eduardo Duhalde, da Argentina.
Hierro opinou que “é prematuro planejar a organização de um Parlamento do Mercosul, devendo-se, ao contrário, fortalecer a ação da Comissão Parlamentar Conjunta”.
Essa Comissão possui o mesmo número de representantes por país, tendo funções de coordenação da atividade legislativa nos quatro Estados que formam o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e de ratificação de tratados e convênios.
O vice-presidente frisou, em declarações à revista “Búsqueda”, a necessidade de garantir “a tarefa legislativa dos parlamentos nacionais para internalizar em cada país a legislação do Mercosul”.
“Tanto a moeda comum quanto o Parlamento comum são etapas posteriores”, porque “primeiro é preciso fortalecer a união alfandegária imperfeita, a secretaria técnica do Mercosul e o organismo comum de Justiça”, afirmou Hierro.
Além disso – em alusão às condições que tanto a Argentina quanto o Brasil impuseram à entrada de mercadorias uruguaias em seus mercados – enfatizou que “é preciso resolver os problemas cotidianos do Mercosul relacionados à livre circulação de bens e pessoas”.
“Sobre isso, tivemos experiências, em alguns casos negativas, que certamente os demais presidentes conhecem”, acrescentou.
O ex-presidente Lacalle, fundador do Mercosul, sempre defendeu um processo de integração subregional estritamente ligado a aspectos comerciais, sem intromissão em política.
Ele afirmou ao jornal “El Observador” que Duhalde e Lula têm todo o direito de se reunirem e formalizar entendimentos bilaterais, mas em relação ao Mercosul “de nada podem dispor porque o bloco funciona levando em conta a opinião unânime de seus integrantes”.
Frisou o quanto é “perigoso avançar no campo político”.
“Rejeitamos qualquer tentativa de unidade política do Uruguai com a Argentina e o Brasil, o Mercosul é uma aliança comercial, com o propósito de favorecer o crescimento da atividade econômica e o emprego, não é um projeto político”, destacou o ex-presidente.
Sobre a moeda comum, disse que não há condições para criá-la e que “falar disso sem coordenar, antes, as políticas macroeconômicas, é uma típica medida destinada ao fracasso”.
Também pediu ao Brasil que deixe de importar arroz subsidiado dos Estados Unidos e que compre o produto do Uruguai. “É isso que esperamos, sem nos entusiasmar com coisas alheias ao espírito do Mercosul”, acrescentou.
Duhalde e Lula se comprometeram na terça-feira desta semana em Brasília a fortalecer a “aliança estratégica” entre os dois países para favorecer a integração regional, eliminar a pobreza e manter a região sem armas nucleares.
Para os dois chefes de Estado, o Mercosul é “também um projeto político”, do qual a sociedade deve participar integralmente.
Fonte: France Presse